terça-feira, abril 10, 2007

Sebastião da Gama (1924-1952) - faria hoje anos!

"Lembro agora a primeira vez que, em Setúbal, a meio do ano, me julguei forçado a pôr fora da aula um aluno: fiquei tão doente que parti o giz que tinha nas mãos e já não fui capaz de continuar a aula. Esse desgosto era sobretudo um desgosto de coração. O de hoje é diferente: o Fosco saiu, porque fez barulho - e fez barulho, porque a aula lhe não interessou - e não lhe interessou "talvez", porque ela não tinha interesse nenhum - e quem devia ir para a rua era eu."Faz-me tanto mal e tanto bem dar uma aula má".
Ontem estive em Setúbal. O Manuel, meu aluno o ano passado, a quem eu não desamparei desde que soube que descera de nível e me escrevera (...) a queixar-se de que estava "à beira dum abismo" (que era a falta de vontade), vem confirmar coisas que eu disse a propósito de ladrões. Se se tem castigado o Manuel, ou se se tem abandonado o Manuel ao seu castigo, o Manuel era um Homem ao Mar. As más tendências que há dois anos fizeram dele um péssimo aluno e que o ano passado persistiram de tal modo no primeiro período que por duas vezes foi suspenso, teriam vingado abertamente. Amparando-o, aconselhando-o, obtendo do meu Director (o melhor Director do mundo, não desfazendo) que o absolvesse da segunda suspensão, levei-o, e levou-se ele próprio, principalmente, a ser o melhor da turma - 18 em Português, no 3º período. E este ano, pelo mesmo processo, subiu ele de 12 valores e de mau comportamento para bom comportamento com 16 valores.
Não há rapazes maus. Há falta de boa vontade, de amor, da nossa parte.
Quantos (Deus me perdoe!) não terei eu já abandonado?"
Sebastião da Gama, Diário
E eu, quantos não terei já abandonado? Apesar de os tempos estarem difíceis, vamos lá a ver se não perco nenhum agora. É que parece que é neste momento, a seguir ao 2º período, que mais alunos desistem da escola...

1 comentário:

  1. Silvia Magalhães4/11/2007 10:56 da tarde

    os que nunca se encontraram. E por muito que o caminho lhes eja traçado a linhas bem profundas, a última decisão será sempre deles: a de se encontrarem ou a de se perderem para sempre.

    ResponderEliminar

Arquivo do blogue

Sitemeter